‘Tabu’ – Análise do Som

Análise do Som da Sequência Inicial da Segunda Parte ‘Paraíso’

A Segunda Parte do filme, intitulada ‘Paraíso’ inicia-se no minuto 52:25, no momento em que Gian-Luca Ventura narra os acontecimentos em África no ano de 1960. A sequência inicial consiste num conjunto de cenas e planos que remetem para a mesma unidade narratológica, a apresentação das personagens principais, Aurora, Gian-Luca e Mário. O som predominante é a voz do narrador, sendo este autodiegético, uma vez que é protagonista da própria história que narra. Devo citar Michel Chion1, que afirmava que certos elementos sonoros são imediatamente ‘engolidos’ na falsa profundidade de imagem ou arrumados na periferia do campo e outros elementos, nomeadamente a voz e a música, orientados para um outro nível, existindo deste modo, uma hierarquia reiterada a favor das vozes, uma vez que para o espectador, seja qual for o magma sonoro, a presença de uma voz humana, em tabu a narração de Gian-Luca Ventura, hierarquiza a percepção em torno de si mesma. No entanto, a banda sonora apresenta-se como uma sobreposição e coexistência da voz, dos efeitos sonoros e da música, sendo um bloco unido face à imagem.

Narração
Ainda no fim da Primeira Parte, ouvimos Ventura dizer: “ela tinha uma fazenda em África”. Percebe-se um silenciamento dos sons diegéticos, restando uma espécie de som ambiente rarefeito, sons de pássaros, e inicia-se a narração da Segunda Parte. A narração apresenta-se como extra-diegética, uma vez que o som da mesma não é percepcionado pelas personagens, a sua função é transmitir a história, a ação e apresentação das personagens; existe deste modo, uma continuidade narrativa à sequência visual, no  sentido em que, à medida que o narrador apresenta uma personagem, são visíveis ações da mesma, no entanto, nesta sequência não existe uma descrição narratológica do que acontece na imagem mas sim uma narração de acontecimentos do passado das personagens. A narração é pausada e monótona, sendo notável o uso de uma linguagem formal. Destaco uma relação entre a narração e a imagem no minuto 58:38, no qual é visível um plano de Aurora no momento em que Ventura diz: “Africa, para além de me atrair pelas suas promessas de exotismo e vida fácil, abria-me portas a um novo mundo sem dívidas de jogo e chatices sentimentais”, esta frase parece ter um sentido irónico, uma vez que o futuro de Ventura acaba por se revelar bastante diferente devido à sua relação ilícita com Aurora, esta que preenche a imagem que completa o som do protagonista a narrar uma frase que é contraditória com os acontecimentos vindouros.

Efeitos Sonoros
Os efeitos sonoros têm por objectivo a simulação da realidade, criando ilusão e estabelecimento do ambiente fílmico. Das categorias de efeitos sonoros, os sons ambiente são os que estão presentes em Tabu, estes traduzem ao espectador o som do universo do filme, ao recriar o ambiente acústico, o espectador ‘entra’ no filme, transmitindo a ideia de que este pertence à realidade do próprio filme.

Ainda antes de se iniciar a Segunda Parte ‘Paraíso’, no momento em Ventura começa a narrar a história num café num centro comercial, já está presente o som predominante em toda a Segunda Parte, o som ambiente da selva, é uma combinação livre, sendo um som ‘wild’ uma vez que não necessita de sincronização frame a frame com a imagem.

Ao minuto 52:25 é visível um plano de Aurora a desenhar sendo o som da voz do narrador e o som ambiente da selva os únicos presentes, no minuto 52:44 Aurora vira uma pagina do caderno sendo este movimento audível ao espectador neste momento os únicos sons presentes são: a voz do narrador, o som ambiente da selva e o efeito sonoro referido; os efeitos sonoros seguintes estão presentes no interior da casa de Aurora, sendo os únicos elementos da banda sonora presentes nesta cena; no minuto 52:55 é audível a respiração de Aurora, dois planos de cortinas a voar, são visíveis no minuto 53:05 juntamente com o som proveniente de tal movimento; ao minuto 53:16 é visível e audível os passos de Aurora pela casa enquanto duas criadas varrem o chão. Todos estes efeitos sonoros são classificados como não fónicos, uma vez que não são de origem humana, e como ‘frame-accurate’, pois estão sincronizados com o evento no ecrã, sendo deste modo, uma combinação audiovisual. Tais efeitos sonoros sugerem a presença espacial dos corpos.

No minuto 54:13, numa cena em que Aurora dá uma aula a uma criança, é visível pela primeira vez um acontecimento peculiar que ocorre recorrentemente neste filme: há diálogo, está presente na imagem o movimento dos lábios mas não são audíveis as falas das personagens. O espectador ao ver as conversas, sente o crescimento das ligações, sem ouvir uma única palavra, apenas o ruído que se passa em redor; isto leva o espectador a estar com mais atenção a todos os gestos, todas as expressões e olhares, uma vez que as personagens falam com o olhar. Este foi um dos aspetos que mais me fascinou na componente sonora de Tabu, juntamente com o granulado da pelicula que remete para o cinema clássico mudo, conferindo a esta Segunda Parte um carácter de sonho.
Ainda na cena em que Aurora dá uma aula a uma criança, juntamente com a voz do narrador, está presente o som ambiente da Selva, e no minuto 54:58 é audível um suspiro de Aurora após beber um copo de limonada, sendo este um som fónico não- fonético.

São visíveis inúmeros planos da savana, acompanhados da narração e do som ambiente; no minuto 55:40 é audível a buzina de um carro no momento em que se vê a chegada do marido de Aurora, nesta cena ocorrem diálogos sem que sejam audíveis as falas das personagens, sendo os únicos elementos da banda sonora presentes: a voz e o som ambiente; no minuto 56:21, um empregado negro chega com uma bacia, Aurora bate na tampa, abre e, no interior está um pequeno crocodilo, ao longo desta ação são audíveis os sons: do bater na tampa, do remover da tampa e da água onde se encontra o crocodilo. O facto de estes serem os únicos efeitos sonoros presentes nesta cena, para além do som ambiente, deve-se à importância simbólica do crocodilo, pois para além de haver uma referência ao animal no Prólogo, este vai ser a razão pela qual Aurora e Ventura se conhecem.

Ao longo de todas estas cenas e planos, os sons predominantes são a voz do narrador e o som ambiente da selva, o facto de o som permanecer constante antes e depois de um corte no plano confere continuidade temporal e espacial à cena.

No minuto 57:00 começa uma música africana e inicia-se a apresentação de Gian-Luca Ventura, e é no minuto 57:03 que é visível pela primeira vez o narrador (na Segunda Parte do filme), este está acompanhado de Mário, havendo nesta cena um diálogo, sem que sejam audíveis as falas. No minuto 57:45, Ventura salta de uma rede de descanso, deixando cair um pano em cima de uma arca com garrafas e Mário dá um rápido golo numa cerveja; Todas estas ações são visíveis mas nenhuma é audível. Aqui os elementos da banda sonora são a música e a voz, no entanto, ao minuto 57:50, as personagens dirigem-se a correr para os veículos e é audível o som dos passos, da porta do carro a abrir e dos motores da mota e do carro a trabalhar, sendo que, nestas ações a câmara está mais ‘longe’ da fonte sonora do que nas ações inicias. Penso que a razão que levou o realizador a não dotar a primeira cena que referi de efeitos sonoros, mas sim a segunda, foi o grau de importância da cena e a necessidade da presença dos efeitos sonoros; vejamos, após o minuto 57:50 inicia-se uma corrida de veículos entre as personagens, sendo que nesta cena estão presentes os efeitos sonoros necessários a criar o ambiente e a presença espacial dos objetos e corpos. Na primeira cena não havia necessidade de tais efeitos sonoros para criar o ambiente que o realizador pretendia. Em Tabu este tipo de
sonorização é muito frequente, tal como já tinha referido anteriormente na cena do
crocodilo.
No minuto 58:23, no momento em ocorre a corrida entre Ventura e Mário, são visíveis dois planos de trabalhadores no campo de chá, sendo audível o som das folhas a serem arrancadas ao mesmo tempo que se ouvem os veículos, esta constância sonora remete para uma continuidade espacial e temporal, dando a sensação ao espectador que o ponto de vista muda, mas a cena é a mesma. No minuto 58:35 há um corte para um plano de Aurora, mantendo a música africana e a voz do narrador, porém, deixam de ser audíveis os efeitos sonoros dos veículos, tal remete pra uma continuidade temporal, mas não espacial.

No minuto 59:28 inicia-se uma música da banda “Mario’s Band” e dá-se início à apresentação de Mário. Ao longo destas cenas, os elementos da banda sonora predominantes são a voz e a música, destacam-se alguns efeitos sonoros, no minuto 60:19 é audível o som de copos, sendo visível um empregado com uma bandeja a passar; mudando de cena, ao minuto 60:38 é audível o som ambiente da selva e do carro no momento em Mário passeia de carro com inúmeras crianças e o som ambiente da selva, num plano interior de casa de Mário no minuto 61:10. No entanto, mais uma vez efeitos sonoros são omissos, nomeadamente, no minuto 60:47, no qual é visível um cemitério num espaço exterior mas apenas é audível a musica e a narração, e o a partir do minuto 61:24, cena em que um macaco arranca mapas de uma parede, mas não é audível o som de tal ação.

Música
A função da música é criar um ambiente que complete as imagens apresentadas, usada convenientemente pode inspirar, relaxar ou excitar os espectadores, invoca respostas emocionantes que a imagem não consegue invocar e a perceção de uma cena pode ser alterada pela música, pois ela tem o poder de reforçar ou contradizer.
Nesta sequência inicial estão presentes dois excertos musicais que se iniciam simultaneamente com a apresentação de novas personagens, havendo por isso, uma relação da música com a narração.

No minuto 57:00 começa uma música africana e inicia-se a apresentação de Gian-Luca Ventura. A música africana está presente em todas as cenas inerentes à narração da história de Ventura, conferindo continuidade temporal e espacial, no sentido em que, sendo a música diegética, dá a sensação ao espectador que as ações das personagens acontecem perto da fonte sonora. A música é diegética uma vez que é audível pelas próprias personagens do filme, sendo a sua fonte, os trabalhadores africanos que são visíveis em inúmeros planos ao longo destas cenas. O uso recorrente, ao longo do filme, de música africana é de extrema importância para a criação do universo exótico e colonial da história, uma vez que o espaço onde decorre a ação é Moçambique. No minuto 59:28 há um corte de plano sendo visível a banda de Ventura e Mário e audível a musica que tocam num concerto noturno, esta música está presente em todas as cenas de apresentação de Mário, conferindo continuidade temporal, mas não espacial, uma vez que ao longo destas cenas existem inúmeros espaços de ação diferentes. A música é inicialmente diegética, uma vez que é visível a sua fonte, a Mario’s Band, porém ao minuto 60:38 deixa de ser diegética, pois a sua fonte sonora já não está presente no espaço de ação e deixa de ser audível pelas personagens em cena.
Curioso é que quando há presença de música diegética da Mario’s Band, parece inverosímil. Devido ao playback e à falta de tratamento que faria a música parecer diegética, ela soa como vinda de um dico, sendo uma estranha relação entre o som e a imagem. Porém, penso que o uso recorrente da musica americana dos anos 60, percetível às personagens, quer seja pela presença da Mario’s Band, ou pelo radio presente na sala de Aurora, embeleza significativamente as cenas, captando eficazmente a atenção do espectador.

De facto, este filme destaca-se pela sua narratologia e pela sua componente sonora sublime que completa uma imagem dotada de um alto valor estético. É de facto um exemplo de um cinema de excelência e que, sem dúvida, deixou uma forte marca na história do cinema português. Para além da sua gloriosa receção crítica internacional que se refletiu na extensa lista de prémios e presença em festivais de cinema internacionais, foi o filme mais exibido a nível internacional, o que é um passo significativo para o cinema português.

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1-Aumont, Jacques; Marie, Michel – A Análise do Filme. Edições Texto & Grafia, 2004
Página 194

Porto, Janeiro 2016

Luís Barros Rodrigues

Published by luisbarrosrodrigues

Born in Viseu, Portugal in 1996. Luís started his journy in the art world in Porto, where he studied a Bachelor of Arts in Cinema, from 2014 to 2017. In 2016 he studied at the Bulgarian National Academy for Theater and Film Arts as an exchange student. Currently lives in Spain, where he studies a master in Executive Production. He's a Filmmaker and Artist.