Santiago Sierra

Santiago Sierra nasceu em Madrid em 1966, o seu trabalho gera acrimónia e entusiasmo em valores iguais, é conhecido por instalações controversas que abordam estruturas de poder que operam no nosso dia-a-dia, expondo situações de exploração e marginalização; Sierra afirma desmascarar o poder das relações que mantêm os trabalhadores invisíveis debaixo do capitalismo, demonstrando as dificuldades da vida daqueles que são excluídos.

Os títulos dos seus trabalhos remetem para as esculturas minimalistas dos anos 60 e 70. “Para minimalismo lê-se materiais, para materiais lê-se evidência, para ação lê-se exploração, para condições lêem-se condições económicas e culturais, para a especificidade do local lê-se sociedade, em tudo se lê capitalismo.”1 , tais são os termos de linguagem de Sierra desde 1990. Num termo mais literal, o seu trabalho combina o desenvolvimento de escultura estabelecido por Rosalind Krauss em ‘Sculpture in na Expanded Fiels’. O trabalho de Sierra incomoda inúmeras pessoas, devido à presença de sem-abrigo, prostitutas, toxicodependentes, e outros que Sierra contrata para os seus trabalhos. “Será que se dispunham outra vez? Será que o teriam feito a primeira vez? Teria sido a sua situação tão desesperada? Isso, afirma Sierra, é a questão.”

A sua obra faz-nos questionar acerca do trabalho e do valor, sobre o que a cultura é capaz de fazer ou dizer, e da exclusividade do mundo da arte internacional, do vazio dos contratos sociais. Existe poética e política no trabalho de Sierra e uma reformulação da linguagem artística dos últimos 40 anos. No fim, temos que perceber o que está presente, o duro testemunho do trabalho, a impotência, o vazio, a violência, e a vergonha.

As obras de Sierra nunca repetem a realidade, mas desafiam a realidade ao expor os seus mecanismos intrínsecos. A essência do seu trabalho é a tensão gerada entre o evento e a sua documentação. O espectador é exposto ao que pode ser descrito como a articulação formal e poética da voz de todos aqueles que são marginalizados e excluídos.
Alguns dos seus trabalhos mais recentes, incluem: Laboratory, Mexico City (2015), Kunsthalle Tübingen, Germany (2013), Reykjavik Art Museum (2012), CAC Malaga (2006).

Poliuretano Espreado Sobre las Espaldas de 10 Trabajadores,
Lisson Gallery, London, Julho 2004

Dez trabalhadores imigrantes iraquianos foram contratados para este trabalho. Protegidos com fatos anti químicos e com um plástico espesso, foram posicionados em diversas posturas e pulverizados com Poliuretano até serem obtidas largas formações deste material.

Através de um vídeo em silêncio, a preto e branco, é apresentada a elaboração desta instalação, “é impossível dizer se são homens ou mulheres, enquanto estão de pé, em linha, de frente para a parede, as suas cabeças estão tapadas por um plástico preto que cobre as costas. Um homem mais alto, numa roupa protetora branca, aproxima-se da linha e posiciona-os, uma mascara de respirar encontra-se no seu pescoço. Quando ele toca neles, fá-lo levemente, mas com uma certa firmeza. Há um ar de profunda inquietação. Quando as figuras se encontram como ele quer, pega em algo que se parece com uma arma (…). E começa a pulveriza-los.” 3 O material solidifica nas costas das pessoas, formando uma camada espessa sobre as suas cabeças, costas e no chão, dando a perceção que estão a ser enterrados vivos numa parede de Poliuretano. Quando a pulverização acaba, as figuras mantém-se imobilizada, e após algum tempo movem-se, saindo do espaço de formação da ‘parede’. São novamente reposicionados sozinhos, ou em grupos de dois e três elementos, repetindo o processo anteriormente referido, em diferentes espaços da galeria. hjk

O vídeo causa um mau estar e inquietude, pensamentos de tortura e exclusão invadem a mente do espectador ao observar dez iraquianos a serem pulverizados. “O trabalho de Sierra é em parte um comentário dramatizado sobre a obscuridade em que vivem”4. Através desta instalação, o autor expõe a marginalização destes indivíduos, metaforicamente, o poliuretano representa a parede que os isola, a exclusão social face ao capitalismo, a falta de voz numa falsa sociedade democrática, a falta de liberdade e de
igualdade. “Mesmo o poliuretano (…) ele isola e isola. Podemos vê-lo, metaforicamente, como esperma (Sierra também pulveriza este material sobre prostitutas italianas), como um jato de matéria fecal sem forma, como um substituto para a pintura, como algo que se transforma em pedra.”5 . Aqui eles são seres sem forma definida, são seres imoveis, limitados, são estátuas de uma sociedade em movimento.

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Através do título da instalação/vídeo é percetível a naturalidade com que o artista representa esta classe social, tal é visível noutras obras de Sierra, os títulos, para além de remeterem ao minimalismo dos anos 60/70, são uma descrição fiel ao acontecimento, remetendo para a realidade que Sierra expõe no seu trabalho.

Admiro a obra de Santiago Sierra devido aos temas que aborda, e à sua ousadia, tal é visível em obras como Los Encargados (Madrid, 2012) e No Proyectado Sobre El Papa (Madrid, 2011). Escolhi comentar a instalação Poliuretano Espreado Sobre las Espaldas de 10 Trabajadores, uma vez que me impressionou a intenção do artista e o método escolhido para abordar os problemas sociais que as pessoas envolvidas enfrentam, estas que foram recrutadas de uma comunidade iraquiana a oeste de Londres. A nível audiovisual, o vídeo da instalação cria uma envolvência perfeita ao espectador, incitando-o à interpretação da obra.

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1-5
Adrian Searle. 13 de Julho de 2004, The Guardian

Published by luisbarrosrodrigues

Born in Viseu, Portugal in 1996. Luís started his journy in the art world in Porto, where he studied a Bachelor of Arts in Cinema, from 2014 to 2017. In 2016 he studied at the Bulgarian National Academy for Theater and Film Arts as an exchange student. Currently lives in Spain, where he studies a master in Executive Production. He's a Filmmaker and Artist.

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