O Transcendentalismo no Cinema de Terrence Malick

Resumo:
Neste ensaio escrevo acerca da filosofia transcendentalista de Ralph Waldo Emerson e do cinema de Terrence Malick. Baseio-me na noção de Transcendentalismo enquanto movimento filosófico que sustenta as suas bases no racional, intimo e no intuitivo, na união dos polos opostos e na relação perfeita de cada ser com a Natureza, e estabeleço esta relação entre Malick e Emerson pelo facto de vermos nos filmes de Malick uma reflexão do que lemos nos ensaios de Emerson. A filmografia de Malick pode ser dividida em duas fases, uma fase inicial na qual pertencem os filmes – ‘Badlands’ e ‘Days of Heaven’ que se apresentam com uma narração e cinematografia mais contida, sendo que, as suas personagens apresentam uma atitude mais materialista, e a noção ou comportamento transcendentalista não está, ainda, totalmente presente na obra do realizador. Com ‘The Thin Red Line’, Malick explora a relação Homem-Natureza, e as questões de Intriga Pessoal, com a Batalha de Guadalcanal como contexto histórico, a maneira como uma ato humano tão irracional consegue influenciar e moldar todo o pensamento humano, assistimos à rutura psicológica de cada personagem e a sua necessidade de sair daquele sitio, daquela vida, fugir ao superfulo e procurar o verdadeiro sentido da natureza, da vida. ‘The New World’ faz uma continuação à temática transcendentalista e apresenta a Natureza num papel de destaque, Pocahontas apresenta uma verdadeira relação com o natural e luta por sentir a sua presença, neste filme assistimos ao colonialismo, opressão, repressão e agressão e percebemos a superficialidade dos colonizadores em contraste com a simplicidade de vida dos nativos. Malick dedica o seu próximo filme ‘The Tree of Life’ ao surgimento e evolução da vida em todas as suas formas e manifestações, este é sem dúvida a sua obra mais filosófica, sendo que se baseia no ‘Livro de Jó’ do Antigo Testamento e nos ensaios de Emerson – ‘Experience’ e ‘Compensation’, este é para mim o filme de Malick de mais difícil interpretação dada à sua enorme carga simbólica e aos temas, noções e ideais implícitos, a procura da noção de vida, a aceitação da morte enquanto elemento participante inevitável do natural, e o seu consequente ato do Transcendentalismo.

O Intimo, a União e Ação Humana como noções aos quais os filmes de Terrence Malick, sustentam as suas bases.

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Define-se Transcendentalismo como um sistema filosófico que confia na racionalidade enquanto elemento determinante, de carácter místico e panteísta, unifica Deus, a Natureza e o Homem, sendo que a intuição é a principal via para o conhecimento. Surge nos Estado Unidos da América no século XIX, tendo como principal fundador o filosofo Ralph Waldo Emerson. Segundo a filosofia de Emerson, o material e o espírito não se encontram em campos opostos, mas refletem uma unidade critica de experiência, para Emerson tudo existe num curso de mudança e de constante metamorfose, a sua filosofia destaca-se pelo equilíbrio dos opostos, poder e forma, identidade e variedade, intelecto e destino. A independência, o pensamento, a introspeção são elementos chave na visão de Emerson, assim como a forte relação do homem com a natureza.

Se e pensarmos no cinema de Malick, concluímos que este é indiscutivelmente um cinema de filosofia, que na minha opinião, expressa significativamente os ideais defendidos pela filosofia de Emerson, quer a nível temático como estético. Basta pensarmos neste ultimo ponto – ‘a forte relação do homem com a natureza’ – que é tão visível em inúmeros filmes do realizador, a natureza que assume o protagonismo. Bill Fech afirma em “The Soul Announces Itself: Terrence Malick’s Emersonian Cinema” que o cinema de Malick se define em três aspetos significativos – intimo, união e ação.

1

“Primeiro vem a consciência, depois o conhecimento da condição humana, por fim a ação num mundo baseado nesse mesmo conhecimento, sem o qual nada de valor poderá ser alcançado”1
“O dia-a-dia e a mente humana, contêm o sublime, como parte da sua ordem natural”2

Foquemos agora nestes três conceitos, de Intimo, União e Ação. Pensamos na obra de Terrance Malick. E percebemos o quão implícitos eles se encontram na narrativa dos seus filmes. No filme The Tree of Life, somos incluídos nos pensamento da Mrs Obrien e Jack, acedemos ao seu conflito pessoal, às suas reações emocionais a tantos contecimentos, como a morte de R.L., apercemo-nos da união, a união de uma família, da natureza, do homem e do mundo, assistimos às ações marcantes de Mr Obrien, e  assistimos à sequencia da criação e evolução, assistimos à ordem natural da vida, a vida do homem e da natureza, a vida de todos aqueles que são moldados por estes três conceitos – Intimo, União, Ação.

É através de toda esta influência transcendentalista que Terrence Malick define a sua estética cinematográfica. Analisaremos agora as opções ao nível técnico. Ao nível da cinematografia, Malick evita a câmara estática, e capta a natureza com sentido místico, a imagem passa a mensagem pretendida pelo realizador. Planos de luz a irromperem pelas árvores, planos sequência das personagens a vaguearem pelo espaço, sequencias da natureza, da vida, da evolução. Através da imagem, Malick cria uma cinematografia poética que nos dá as ferramentas para a intriga de cada filme. O som une-se com a imagem de forma sublime, a ocultação de certos elementos sonoros, a enaltação de  utros, a recorrência a música clássica; a narração nos seus filmes vai e vem como um fluxo de pensamento, por vezes Malick sobrepõe a narração de diferentes personagens, nem sempre conectada com a informação visual, e expõe as questões pessoais de cada personagem, os seu pensamentos mais profundos, arrependimentos e pouco a pouco, o expectador encontra-se numa envolvência sem retorno ao intimo de cada personagem. Pergunto-me, não será isto cinema?

Neste meu ensaio, divido a filmografia de Terrence Malick em duas fases. A primeira composta pelas suas primeiras longas-metragens, Badlands e Days of Heaven, que se caracterizam por uma narração mais convencional e cinematografia mais contida, e que aborda, por parte das personagens uma ambição mais materialista que espiritual. A segunda fase inicio com The Thin Red Line como ponto de partida a um  transcendentalismo mais profundo culminando na obra The Tree of Life, que mais longe leva esta ideologia filosófica .

The Thin Red Line inicia uma fase de Malick mais focada no transcendentalismo, o filme inicia-se com uma forte sequência de natureza, observamos no plano inicial um  crocodilo e seguem-se inúmeros planos de árvores de tamanho tal que remete para intemporalidade. Observamos soldados americanos numa relação afetuosa com uma tribo e cultura desconhecida à realidade americana, como ser por momentos fosse impensável ou imprevisível a história de guerra que se segue. Observamos cenas de violência fortíssimas, que confesso não ser especial admirador, mas que expõem o que de mais irracional ocorre no percurso da humanidade, mas o que é mais notável nesta obra de Malick não são as cenas de violência extrema nem o contexto histórico da batalha de Guadalcanal mas sim o protagonismo da natureza e do pensamento humano, aos poucos nos apercebemos da influencia da natureza no espírito de Witt, a maneira como por vezes, ele esquece que a guerra existe para conseguir alcançar a harmonia com a natureza, para conquistar o bem estar interior, e esse sim é o verdadeiro drama, a verdadeira intriga do filme, não é a batalha de Guadalcanal, essa existe em pano de fundo, face ao conflito interior de cada personagem.

Os dois filmes que se seguem, The New World e The Tree of Life são na minha opinião, os filmes de Malick que mais se aproximam dos ideais filosóficos de Emerson, sendo que remetem para os seus ensaios ‘Nature’ e ‘The Over Soul’, nomeadamente a relação Homem-Natureza, e os três pontos já referidos, Intimo-União-Ação.

No quarto filme de Malick The New World , a Natureza assume-se indiscutivelmente como uma personagem principal do filme, não só ao nível da cinematografia, repleta de imagens das paisagens nuas de Virgínia, das árvores, do rio, dos campos, assim como o som da água, do vento, dos pássaros, mas também ao nível narrativo, é através da relação Homem-Natureza, que Malick expõe as lutas interiores de cada personagem num mundo longe de ser perfeito. Assistimos ao triste ato do colonialismo, vejamos que a cena na qual existe o primeiro contacto entre o povo nativo americano e os colonizadores ingleses, Malick opta por uma banda sonora de Wagner e por uma ação desprovida de violência, mas sim de observação, os nativos americanos observam os colonizadores com a mesma surpresa e estranheza que os colonizadores o fazem. Inicialmente, e até parte do filme, acreditamos que ambos os povos podem co-habitar pacificamente, num espaço de harmonia com o natural, mas cedo notamos os contrastes. Basta observarmos o comportamento dos nativos, o espaço e a comunidade onde vivem, a maneira como andam pela floresta, como se banham no rio, como comunicam, a maneira como não lutam por fugir à natureza, mas sim lutam por viver como ela, a maneira como encontram um termo de equilíbrio e harmonia com a mesma. Os colonizadores fazem o oposto, andam de postura firme, cortam árvores e constroem fortalezas onde se isolam, olham para a Natureza não como vida mas apenas como meio para adquirem o  materialismo que procuram, e o pensamento de relação harmoniosa entre povos distintos rapidamente se desmorona em cenas de violência sangrentas, apenas justificadas por uma ambição materialista sem valor. Mas o que de mais único ocorre no filme, é a relação amorosa entre Smith e Pocahontas, inicialmente, Smith, condenado à morte, é lhe dada uma nova oportunidade e encarregue o trabalho de comunicar com a tribo mais rica da área, penso que é notável a primeira imagem que temos de Smith, preso no fundo de um barco, olha para cima à procura de luz, de harmonia e apenas a encontra no curto espaço de tempo que convive com a tribo. –

“They are gentle, loving, faithful, lacking in all guile and trickery. The words denoting lying, deceit, greed, envy, slander, and forgiveness have never been heard. They have no jealousy, no sense of possesion. Real, what I thought a dream.”3

Pocahontas representa a perfeita relação Homem-Natureza, desde o inicio do filme que procura pela natureza, que a chama, que deseja a sua harmonia com a mesma. Esta personagem remete inteiramente ao ensaio Nature de Emerson. Procura o bem estar e bondade, notemos a cena em que Pocahontas oferece mantimentos aos colonizadores no inverno, não só pelo amor por Smith mas também pela preocupação. O rumo desta personagem torna-se um pouco contraditório, após receber a trágica noticia da morte de Smith, Pocahontas cede ao modo de vida dos colonizadores mas sem se afastar do natural, sem largar a comunicação que sempre estabeleceu com a Natureza. Acaba por se casar e construir família com John Rolfe, com quem tem uma vida mais materialista e longe dos costumes em que foi criada e é vista como uma princesa na sociedade Londrina do século XVII, mas o que se torna mais notável e cativante nesta personagem é assistirmos ao seu reencontro pacifico com Smith, ao seu amor pelo marido e filho e acima de tudo, mesmo na fase final da sua vida, Pocohantas mantém uma harmonia contagiante com a Natureza, uma das sequências mais fortes do filme, é sem dúvida a maneira como se move com o filho pelos jardins da casa de Rolfe na Inglaterra, e como percebemos que aceita a morte como elemento natural da vida, e que finalmente encontra o que desde o início do filme procura, o rosto, a forma e a presença do natural.

The Tree of Life é um filme de Malick com uma abordagem filosófica bastante significativa que remete para os ensaios ‘Compensation’ e ‘Experience’ de Emerson e o ‘Livro de Jó’ do Antigo Testamento. Logo no início do filme observamos uma chama laranja, que para muitos espectadores é de difícil interpretação, significará a alma, o espírito, o início do universo ou a representação física do eterno? Ou a figuração de Deus, não como uma figura humana, mas como uma energia presente no interior de cada pessoa. Malick expõe que o universo é composto por duas forças – Natureza e Graça. A Natureza enquanto elemento forte e violento, a Graça como elemento bondosome paciente, e são nestes dois polos opostos que o universo se sustenta. Na narrativa, é evidente que o Pai, Mr Obrien, representa a força e a violência da Natureza e a Mãe, a bondade e paciência da Graça. O filme apresenta a maneira como a morte e a vida, como toda a experiência e ação humana moldam o pensamento e o carácter de cada ser, sendo o intimo, a união e a ação as bases da nossa existência.

O filme é dividido em três cenários/épocas distintos e por duas sequencias notáveis, o nascimento e evolução da vida, a morte e a consequente eternidade. O primeiro numa época contemporânea, sendo este o primeiro filme de Malick com um set contemporâneo, no qual nos é apresentado um arquiteto num estado de melancolia e intriga pessoal, ficamos conhecedores que o seu irmão, morreu aos 19 anos. O segundo set retrata precisamente os pais de Jack a receberem a noticia da morte do seu filho, ele pode ser visto neste filme como o mártir do bem e do transcendentalismo, tal como o representam Pocahontas e Witt, nos seus respetivos filmes. Num terceiro set observamos a infância de Jack e dos seus irmãos, e a sua relação com os pais. A relação de Jack com o Pai vai-se tornando mais tensa ao longo do filme, por consequência das atitudes violentas do Pai, por alturas pede a Deus que o mate, e tanto ele como o irmão começam por tomar ações de baixa moralidade, perdem a fé quando um vizinho morre afogado e começam a questionar a existência divina, sentido-se dividido entre o rumo da Graça ou Natureza.

O que de mais notável acontece neste filme é sem dúvida a sequência do surgimento do universo e da vida, observamos planos únicos com uma perfeita execução técnica acompanhados de música clássica e da narração de Mrs Obrien, que tornam esta sequencia uma abordagem filosófica única ao sentido da vida, num momento em que observamos vida, uma cena tem especial destaque, quando perto de um rio observamos um dinossauro herbívoro ferido, chega um dinossauro carnívoro, que inicialmente o ataca, mas depois olha para ele como se fosse um ser de capacidade racional, e liberta-o, sem o ferir, sem o matar. Na minha opinião esta ação é conotada de um simbolismo único, onde a noção de união está mais que implícita. E através desta sequência que Malick revela o ideal que todos nós, seres e cosmos, partilhamos a mesma origem de existência, e a importância de cada partícula que constitui o universo, de cada ser que habita ou habitou neste planeta, a maneira como unidos fizeram da nossa existência o que ela é, e tal Emerson defende em ‘Compensation’, o universo é representado por cada partícula que o constitui e cada elemento da natureza contém todo o poder da mesma. A sequência final é tão igualmente bela quanto todo o filme, sequência intitulada ‘Eternidade’ Malick apresenta o reencontro das personagens, e consequentemente o perdão e bem estar entre as mesmas, através de uma porta para o deserto, Jack encontra a sua família, e finalmente aceita a morte, alcançando o transcendentalismo. E é nesta sequencia, e em todo o filme que Malick expõe os três ideais que tanto definem toda a sua obra – o intimo, a união e a ação.

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Referências Bibliográficas
FECH, Bill (2013). The Soul Announces Itself: Terrence Malick’s Emersonian Cinema. A THESIS submitted to Oregon State University. USA.
ÇAGLAYAN, Emre (2014). Book Review: Terrence Malick: Film and Philosophy. University of Kent. USA.
DILLON, Sarah (2014). “Some Magical Land”: Terrence Malick’s Sublime Visions of America. University of Wellington. New Zealand.

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1/2 – Ralph Waldo Emerson 3 Capitan Smith in The New World

 

Porto, Junho 2017

Luís Barros Rodrigues

Published by luisbarrosrodrigues

Born in Viseu, Portugal in 1996. Luís started his journy in the art world in Porto, where he studied a Bachelor of Arts in Cinema, from 2014 to 2017. In 2016 he studied at the Bulgarian National Academy for Theater and Film Arts as an exchange student. Currently lives in Spain, where he studies a master in Executive Production. He's a Filmmaker and Artist.

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