‘Tabu’

Tabu é uma longa-metragem de 2012, rodado a película, a preto e branco, realizada por Miguel Gomes e produzida por Sandro Aguilar e Luís Urbano. O filme é tem referências a Tabu (1931) de FW Murnau, porém Miguel Gomes afirma que não é uma homenagem:
“O cinema não precisa de ser homenageado. É um filme que tem muita vontade de dialogar com a memória do cinema clássico americano e com o cinema mudo. Não é uma homenagem pois o cinema não precisa de ser homenageado, a não ser pelos filmes que vamos continuando a fazer.”1

Tabu divide-se em três partes: Prólogo, o narrador, Miguel Gomes, lê um texto poético e filosófico que invoca uma lenda, o suicídio de um intrépido explorador que, em terras de África, noutros tempos, se suicida lançando-se para as águas turvas de um rio onde será devorado por um crocodilo, após a morte da sua esposa.

A primeira parte, intitulada ‘O Paraíso Perdido’, é passada em Lisboa em 2010, Aurora é uma idosa frágil e instável que vive com Santa, a sua empregada cabo-verdiana. Pilar é a sua vizinha e única amiga que vai procurar Gian-Luca Ventura a pedido de Aurora. Santa e Pilar descobrem Ventura e passam a conhecer um episódio do seu passado: uma história de amor e crime passada numa África de filme de aventuras.
A segunda parte, intitulada ‘Paraíso’, é passada em Moçambique entre 1960 e 1961. Aurora vive numa fazenda no monte Tabu com o seu marido e um crocodilo, é através deste animal que conhece Gian-Luca Ventura com quem se envolve num amor louco, apaixonante e melancólico.

Resultado de imagem para tabu de miguel gomes

Tabu foi filmado em pelicula 35mm; o preto e branco, o granulado, a resolução de 1:1.37, juntamente com o enquadramento dos planos e a composição da imagem, remete para os filmes dos primórdios do cinema, sendo notável a semelhança narratológica com Tabu de F.W. Murnau. Miguel Gomes comenta a referência a Murnau:

“Tenho uma questão neurológica que é a minha fraca capacidade de me recordar das coisas. Portanto, não tenho qualquer intenção de citar filmes ou realizadores em concreto. Desde a minha juventude que devoro filmes, inclusivamente do Murnau. Lembro-me que nessa altura as televisões generalistas ainda faziam algum sentido e passavam ciclos do Murnau. Algo que hoje seria completamente impossível. Quando tinha quinze anos a RTP, a televisão pública portuguesa, até passou um ciclo inteirinho do Murnau. Não estou, apesar do título a citar este ou aquele filme do Murnau. Não me interessa fazer um cinema de citações, que tenha uma referência concreta. Pois isso pode fechar o cinema numa espécie de circuito fechado. Mas existe de facto em mim integrada essa experiência de espectador de cinema, que passa pelo Murnau e por outros grandes cineastas. Quem tenha um bocadinho de coração não é indiferente aos filmes do Murnau.”2

“Hoje nem eu nem ninguém se situa, pois não há cenário de produção em Portugal neste momento”, disse Gomes à swissinfo.ch, após falar em inúmeras entrevistas das dificuldades de se filmar em Portugal, Gomes diz estar orgulhoso de fazer parte de uma tradição cinematográfica de 50 anos. Cinéfilo incurável refere-se às raízes do “cinema novo” português que nasceu com Os Verdes Anos (1962) de Paulo Rocha. “Esse cinema tentava dialogar com a sociedade de uma maneira mais pessoal e menos atada ao governo de Salazar”, explica Gomes. O assunto principal de Tabu é o próprio cinema, ou em outras palavras, foi uma reflexão sobre cinema que levou Miguel Gomes a mergulhar no passado colonial. Miguel Gomes fala acerca da relação do colonialismo com o exotismo:

“Acho que as duas coisas podem coexistir. Não quis demonstrar que o colonialismo é uma coisa necessariamente má. Há uma memória disso e chega! Muita gente regressou a Portugal há cerca de 30 anos vinda das antigas colónias portuguesas. Para preparar este filme conheci um grupo de pessoas que tinham uma banda de música em Moçambique que me falavam como se ainda estivessem ligadas aquela terra. Diziam coisas que do ponto de vista politico e ideológico, eu não estava de acordo. Mas havia nelas uma grande verdade emocional, na forma como descreviam o tempo que lá passaram e as coisas que tinham feito em Moçambique. Percebi que esse lado afectivo era muito forte, independentemente do tempo e do regime politico que viveram na sua juventude. O filme está de alguma forma estruturado dessa maneira. Uma parte tem a ver com a velhice e outra com a juventude. Outra com a solidão, outra por oposição com a possibilidade do amor existir. Aí talvez tenha a ver como o Murnau e com o cinema mudo. No cinema mudo havia opções binárias muito fortes. Havia estes contrastes, campo-cidade, ‘paradise, paradise lost’. Quis pôr essas duas coisas em oposição, razão pela qual o filme está dividido em duas partes. Na segunda parte, existe um lado afectivo, relativamente à memória daquele tempo. Não quer dizer que não haja um distanciamento crítico em relação àquela sociedade. O colonialismo ali é um bocado como a barriga da Aurora. Ela está grávida e aquela relação dela com o Ventura é um bocado a prazo. Sente-se que há como que uma bomba-de-relógio, que vai explodir a qualquer momento. Podemos tentar ignorar isso, mas essa bomba vai explodir à mesma. O colonialismo facilita uma relação entre duas pessoas, que obviamente não tem futuro.”3

Penso que é notável a relação estabelecida entre a questão do colonialismo e do cinema mudo, pelo facto do colonialismo representar uma dualidade entre a ligação emocional às terras africanas e o futuro incerto dos portugueses que lá viviam, tal como o cinema mudo clássico está repleto da dualidade do próprio homem, das suas acções e do meio onde vive.

__

1,2,3 – Miguel Gomes numa entrevista à Visão

Porto, Janeiro 2016

Luís Barros Rodrigues

 

 

Published by luisbarrosrodrigues

Born in Viseu, Portugal in 1996. Luís started his journy in the art world in Porto, where he studied a Bachelor of Arts in Cinema, from 2014 to 2017. In 2016 he studied at the Bulgarian National Academy for Theater and Film Arts as an exchange student. Currently lives in Spain, where he studies a master in Executive Production. He's a Filmmaker and Artist.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s